"DISCRETA NA VIDA... E NA PARTIDA.
Ana Faria que nos deixou ontem, tem obra maior do que o conhecimento que se tem dela.
Viveu com amor pela música, também pela pintura e recusou sempre a luz dos holofotes , inevitável consequência de tantos projectos em que se empenhou.
A primeira vez que a vi, cantava no mítico programa da RTP ZipZip, a canção de embalar de José Afonso. O Zip foi o primeiro programa da televisão em Portugal que divulgou cantautores e músicos que pelas suas opções estéticas não faziam parte dos elencos habituais dos programas de variedades...exemplos de Manuel Freire, Hugo Maia de Loureiro, Pedro Barroso entre outros.
A primeira vez que a Ana esteve ao meu lado num palco, foi no cinema Nimas na Febre de Sábado de Manhã em 1981,com o grupo Terra a Terra.
Ao contrário do que parece instituído, a Febre lançou e divulgou muita música músicos de diversas áreas, não apenas do rock .
A chamada Música Popular Portuguesa foi por mim largamente acarinhada com actuações de grupos como a Brigada Vítor Jara, a Ronda dos 4 caminhos, Bago de milho, Romanças e o Grupo de Cantares de Manhouce com Isabel Silvestre, apenas para citar alguns.
E o"pessoal da pesada" estava tão aberto ao "Chico fininho" do Rui Veloso como ao "Dançando pulirando" dos Terra a Terra.
Lá estavam entre os 17, o Mário Piçarra e a Ana Faria, agora juntos num coro celestial.
Fundadora do coro Jovens cantores de Lisboa, fez da música um acto permanente de partilha.
Anos depois do fim do Terra a Terra nasceu o disco "Brincando aos clássicos" onde a catalogada música de elites era interpretada com letras e arranjos que a miudagem entoava com prazer... obra da Ana .
E seguiram-se "Os queijinhos frescos" com os três filhos da autora, e os Onda Choc onde pontificava uma menina atrevida, hoje em dia a grande estrela pop nacional Marisa Liz,- emotiva como é adivinho lágrimas a correrem-lhe pela face - e as Popeline .
É vasta a obra que nos legou a Ana Faria, sempre com o objectivo de nos divertir, ajudar a crescer os nossos filhos e netos de forma intelectualmente saudável, valorizando a música portuguesa.
Hoje valeria a pena reouvir a Ana Faria a cantar a "Avé Maria do povo" com a sua voz doce e presença discreta tal como em 1969.
Quero acreditar que haverá muitos a perguntarem-se...quem era a cantora e pintora que faleceu aos 74 anos... ah, agora já sei!...é a senhora que inventou os Onda Choc que venderam um milhão de discos... e não é também uma das vozes daquele grupo(?) que cantava Lá vai Jeremias?
É na morte que renascem as memórias...infelizmente."
Texto de Júlio Isidro


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