Destas mãos que falam, saem gritos d'alma, gemidos de dor, às vezes, letras com amor, pedaços da vida, por vezes sofrida, d'um quase iletrado escritor. Saem inquietações, também provocações, com sabor, a laranjas ou limões. Destas mãos que falam, saem letras perdidas, revoltas não contidas, contra opressões, das nossas vidas! (Alberto João)

domingo, 18 de agosto de 2024

Júlio Isidro sobre a partida de Ana Faria: "É na morte que renascem as memórias... infelizmente."


 

"DISCRETA NA VIDA... E NA PARTIDA.
Ana Faria que nos deixou ontem, tem obra maior do que o conhecimento que se tem dela.
Viveu com amor pela música, também pela pintura e recusou sempre a luz dos holofotes , inevitável consequência de tantos projectos em que se empenhou.
A primeira vez que a vi, cantava no mítico programa da RTP ZipZip, a canção de embalar de José Afonso. O Zip foi o primeiro programa da televisão em Portugal que divulgou cantautores e músicos que pelas suas opções estéticas não faziam parte dos elencos habituais dos programas de variedades...exemplos de Manuel Freire, Hugo Maia de Loureiro, Pedro Barroso entre outros.
A primeira vez que a Ana esteve ao meu lado num palco, foi no cinema Nimas na Febre de Sábado de Manhã em 1981,com o grupo Terra a Terra.
Ao contrário do que parece instituído, a Febre lançou e divulgou muita música músicos de diversas áreas, não apenas do rock .
A chamada Música Popular Portuguesa foi por mim largamente acarinhada com actuações de grupos como a Brigada Vítor Jara, a Ronda dos 4 caminhos, Bago de milho, Romanças e o Grupo de Cantares de Manhouce com Isabel Silvestre, apenas para citar alguns.
E o"pessoal da pesada" estava tão aberto ao "Chico fininho" do Rui Veloso como ao "Dançando pulirando" dos Terra a Terra.
Lá estavam entre os 17, o Mário Piçarra e a Ana Faria, agora juntos num coro celestial.
Fundadora do coro Jovens cantores de Lisboa, fez da música um acto permanente de partilha.
Anos depois do fim do Terra a Terra nasceu o disco "Brincando aos clássicos" onde a catalogada música de elites era interpretada com letras e arranjos que a miudagem entoava com prazer... obra da Ana .
E seguiram-se "Os queijinhos frescos" com os três filhos da autora, e os Onda Choc onde pontificava uma menina atrevida, hoje em dia a grande estrela pop nacional Marisa Liz,- emotiva como é adivinho lágrimas a correrem-lhe pela face - e as Popeline .
É vasta a obra que nos legou a Ana Faria, sempre com o objectivo de nos divertir, ajudar a crescer os nossos filhos e netos de forma intelectualmente saudável, valorizando a música portuguesa.
Hoje valeria a pena reouvir a Ana Faria a cantar a "Avé Maria do povo" com a sua voz doce e presença discreta tal como em 1969.
Quero acreditar que haverá muitos a perguntarem-se...quem era a cantora e pintora que faleceu aos 74 anos... ah, agora já sei!...é a senhora que inventou os Onda Choc que venderam um milhão de discos... e não é também uma das vozes daquele grupo(?) que cantava Lá vai Jeremias?
É na morte que renascem as memórias...infelizmente."

Texto de Júlio Isidro




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"Horta do Zorate" é o blogue pessoal de Alberto João (Catujaleno), cidadão do mundo em autoconstrução desde 1958.