Destas mãos que falam, saem gritos d'alma, gemidos de dor, às vezes, letras com amor, pedaços da vida, por vezes sofrida, d'um quase iletrado escritor. Saem inquietações, também provocações, com sabor, a laranjas ou limões. Destas mãos que falam, saem letras perdidas, revoltas não contidas, contra opressões, das nossas vidas! (Alberto João)
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segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Novo livro de Herberto Helder esgota no armazém e não será reeditado...

"O mais recente livro de Herberto Helder "A Faca Não Corta o Fogo - súmula e inédita", lançado na quinta-feira, encontra-se esgotado no armazém da editora."

Lusa, última hora, 13-10-2008

domingo, 12 de outubro de 2008

Faz hoje 36 anos que Ribeiro Santos foi assassinado pela PIDE...



"José António Ribeiro Santos foi um conhecido dirigente estudantil, militante de uma organização maoista então na clandestinidade, o MRPP. A sua morte pesou enormemente no movimento estudantil e revolucionário de então, mobilizou um grande número de pessoas até então não despertas para a luta política e o seu funeral transformou-se numa grande batalha contra o fascismo e contra a guerra colonial. O exemplo político e o exemplo do carácter pessoal de Ribeiro Santos perduraram durante décadas e, apesar das actuais tentativas para os diluir ou mistificar, continuam bem fundas no coração dos revolucionários e antifascistas portugueses."

in: http://www.paginavermelha.org/








Vararam-te no corpo e não na força
e não importa o nome de quem eras
naquela tarde foste apenas corça
indefesa morrendo às mãos das feras.

Mas feras é demais. Apenas hienas
tão pútridas tão fétidas tão cães
que na sombra farejam as algemas
do nome agora morto que tu tens.

Morreste às mãos da tarde mas foi cedo.
Morreste porque não às mãos do medo
que a todos pôs calados e cativos.

Por essa tarde havemos de vingar-te
por essa morte havemos de cantar-te:
Para nós não há mortos. Só há vivos.

(José Carlos Ary dos Santos)









quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Café, pastel de nata e um convite...


Esta manhã, ocasionalmente, parei junto à Barragem de Magos, para tomar o pequeno almoço numa pastelaria/restaurante à beira da estrada Salvaterra de Magos/Coruche...Enquanto saboreava o pastel de nata e o café, reparei num montinho de convites em cima do balcão...Retirei um que diz assim:


CONVITE


Tenho o prazer de convidar a população em geral

a estar presente no lançamento do meu livro:

"A minha vida em versos e dedicatórias",

de minha autoria - Olívia Cordeiro Rodrigues,

que se realiza dia 30 de Agosto de 2008, pelas 16.00 horas,

no Cine-Teatro de Benavente



domingo, 10 de agosto de 2008

Morreu Mahmud Darwich, poeta dos palestinos...

"A obra de Mahmoud Darwich é um exemplo não apenas do conflito entre as diferenças, mas também não nos faz esquecer a impressão geral de fazer de sua poesia uma filha de seu tempo. A poesia de Darwich é um eco do estado de urgência em que se encontra o povo palestino face à interrogação sobre as referências coletivas, sejam elas jurídicas, morais ou culturais. É exemplar enquanto abre espaço para a reflexão sobre a necessidade de compreender a diferença cultural como produção de identidades, para a reflexão de como o escritor imigrante/exilado expressa através de sua obra os “entre-lugares” e de como a sua escrita ultrapassa fronteiras, sejam elas culturais, geográficas, políticas ou sociais. Sua obra leva também à reflexão sobre o mundo contemporâneo e o papel do poeta como intelectual representativo de uma coletividade, a Palestina, no exílio. Colocado neste “entre-lugar”, como mediação entre culturas tão diversas e, ao mesmo tempo, aproximadas pelas trocas que caracterizam o mundo contemporâneo, o escritor faz incidir sobre sua escrita a reflexão tão atual sobre o papel e o lugar da literatura num mundo dividido e contraditório como o nosso, bem como o papel do intelectual, no dizer de Edward Said, como aquele que faz a opção por uma condição de exilado". "


Alexandra Silva Montes


"Mahmud Darwich, considerado por muitos como o poeta dos palestinos, morreu, este sábado, aos 67 anos, num hospital dos EUA. A Autoridade Palestina declarou três dias de luto nacional pela morte deste poeta.

Um dos maiores poetas do mundo árabe, por muitos considerado como o poeta dos palestinos, Mahmud Darwich, morreu, este sábado, aos 67 anos, num hospital de Houston, nos Estados Unidos, devido a problema cardíacos.

Darwich, tornou-se famoso em particular pelo seu poema «Identidade», de 1964, que falava da obrigatoridade do preenchimento de um formulário israelita e que se transformou num hino rpetido por todo o mundo árabe.

Este poeta, que estava em estado crítico na sequência de intervenção cirúrgica, nasceu na Galileia, em 1941, numa altura em que o território, agora parte do Estado de Israel, estava sob administração britânica.

Darwich, que fugiu para o Líbano após a sua aldeia ter sido arrasada na sequência da guerra israelo-árabe em 1948, escolheu o exílio nos anos 70, tendo partido para Moscovo e depois para o Cairo, onde estudou.

Mahmud Darwich aderiu depois à Organização de Libertação da Palestina voltou a ser obrigado ao exílio quando se encontrava em Beirute ao serviço da OLP durante o Verão de 1982.

Em 1993, demitiu-se da OLP em protesto contra os acordos de Oslo, tendo voltado a território israelita pela primeira vez após o seu exílio apenas em Maio de 1996.

Em particular, Darwich criticou a «mentalidade israelita de guetto» e a política israelita que, na sua opinião, impediu a criação de Estado palestino viável.

A Autoridade Palestina anunciou, entretanto, três dias de luta nacional pela morte de Darwich, cuja obra testemunhou os dramas do exílio e ocupação vividos pelo seu povo.

O presidente palestino, Mahmud Abbas, considerou que o poeta «incarnou a vontade palestina de liberdade e independência» e mostrou-se triste pela «perda de estrela que brilhva no firmamento cultural árabe»."
in TSF, 10-8-2008

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Soneto da Separação...


De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.
.
De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.
.
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.
.
.
Vinícius de Moraes

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Ausência...



Num deserto sem água

Numa noite sem lua

Num país sem nome

Ou numa terra nua


Por maior que seja o desespero

Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.




Sophia de Mello Breyner Andresen
.
.
.
.
.
.
Para a minha Netinha que partiu, hoje, para o México...

domingo, 27 de abril de 2008

Pela Luz dos Olhos Teus - Tom Jobim/Miúcha





Quando a luz dos olhos meus
E a luz dos olhos teus
Resolvem se encontrar
Ai que bom que isso é meu Deus
Que frio que me dá o encontro desse olhar
Mas se a luz dos olhos teus
Resiste aos olhos meus só p'ra me provocar
Meu amor, juro por Deus me sinto incendiar
Meu amor, juro por Deus
Que a luz dos olhos meus já não pode esperar
Quero a luz dos olhos meus
Na luz dos olhos teus sem mais lará-lará
Pela luz dos olhos teus
Eu acho meu amor que só se pode achar
Que a luz dos olhos meus precisa se casar.


Vinicius de Moraes

sábado, 26 de abril de 2008

Gaivota - Alexandre O'Neill



Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.


Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.


Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.


Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.


Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.


Que perfeito coração
no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.



Alexandre O'Neill

quinta-feira, 24 de abril de 2008

ABRIL é preciso; viver não é preciso.



José Mário Branco: "Eu vim de longe!":




Zeca Afonso - Traz Outro Amigo Também:



Queixa das Almas Jovens Censuradas - Natália Correia cantada por José Mário Branco:





Eu Sou Português Aqui
Eu sou português
aqui
em terra e fome talhado
feito de barro e carvão
rasgado pelo vento norte
amante certo da morte
no silêncio da agressão.
Eu sou português
aqui
mas nascido deste lado
do lado de cá da vida
do lado do sofrimento
da miséria repetida
do pé descalço
do vento.
Nasci
deste lado da cidade
nesta margem
no meio da tempestade
durante o reino do medo.
Sempre a apostar na viagem
quando os frutos amargavam
e o luar sabia a azedo.
Eu sou português
aqui
no teatro mentiroso
mas afinal verdadeiro
na finta fácil
no gozo
no sorriso doloroso
no gingar dum marinheiro.
Nasci
deste lado da ternura
do coração esfarrapado
eu sou filho da aventura
da anedota
do acaso
campeão do improviso,
trago as mãos sujas do sangue
que empapa a terra que piso.
Eu sou português
aqui
na brilhantina em que embrulho,
do alto da minha esquina
a conversa e a borrasca
eu sou filho do sarilho
do gesto desmesurado
nos cordéis do desenrasca.
Nasci
aqui
no mês de Abril
quando esqueci toda a saudade
e comecei a inventar
em cada gesto
a liberdade.
Nasci
aqui
ao pé do mar
duma garganta magoada no cantar.
Eu sou a festa
inacabada
quase ausente
eu sou a briga
a luta antiga
renovada
ainda urgente.
Eu sou português
aqui
o português sem mestre
mas com jeito.
Eu sou português
aqui
e trago o mês de Abril
a voar
dentro do peito.



José Fanha

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Espólio de Cardoso Pires doado à Biblioteca Nacional


"Lisboa, 09 Abr (Lusa) - Um auditório cheio aplaudiu hoje, na Biblioteca Nacional, a memória de José Cardoso Pires, unanimemente considerado um dos maiores escritores portugueses do século XX, na cerimónia de doação do seu espólio àquela instituição.
O ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro, que presidiu à sessão, congratulou-se com a homenagem a Cardoso Pires e à sua obra que, "no seu conjunto, se afirma como uma das mais importantes da Literatura Portuguesa da segunda metade do século XX".
"Devemos todos nós, leitores portugueses e falantes de português, ficar gratos à família de José Cardoso Pires pela generosidade demonstrada e pela oportunidade que nos concede de colocar à disposição dos especialistas e do público em geral os originais de muitas das obras do Autor", sublinhou.
O director-geral da Biblioteca Nacional de Portugal (BNP), Jorge Couto, elogiou o "acto de generosidade e civismo" da família do escritor e anunciou um investimento de "mais de cinco milhões de euros", nos próximos anos, na torre de depósitos onde são guardados os documentos à guarda da instituição.
"Não se trata de um espólio qualquer mas do espólio de uma das mais importantes figuras da Literatura do século XX (...), um cirurgião da palavra", frisou.
Depois da assinatura do termo de doação pela viúva do escritor, Maria Edite Pereira, e por Jorge Couto, procedeu-se ao lançamento da sua obra póstuma "Lavagante", recentemente publicada pelas Edições Nelson de Matos.
O editor, Nelson de Matos, aproveitou a ocasião para "fazer uma pequena surpresa" aos presentes e leu um texto inédito de Cardoso Pires, que ele leu há exactamente 25 anos, a 09 de Abril de 1983, quando lhe foi entregue o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (APE), pelo romance "Balada da Praia dos Cães".
Em seguida, uma das filhas do escritor, Ana Cardoso Pires, responsável pela fixação do texto de "Lavagante" - do qual o Autor fez cinco versões - falou do escritório do pai que, ao longo da sua vida, "mudou várias vezes de espaço físico".
"Sempre com o mesmo desprendimento pela qualidade do mobiliário, sucessivamente recauchutado por ele próprio, para se adaptar às necessidades do momento - pormenores", recordou, porque "permanecia o importante: os livros e os papéis da memória".
"Por isso - observou - a cerimónia a que há pouco assistimos foi o lançamento da primeira pedra do novo escritório do Zé, agora com estantes novas e aberto a quem o queira conhecer".
Depois, foi a vez de a Professora universitária Maria Lúcia Lepecki, especialista na obra de Cardoso Pires, dizer umas palavras sobre o escritor, que conhecia desde 1966, ano em que começou a leccionar na Universidade de Minas Gerais.
"Eu leio e estudo o José Cardoso Pires há 42 anos e ele comove-me todas as vezes", declarou.
Quanto a "Lavagante", a Professora classificou-o como "um texto perfeitamente acabado" pelo que é para si "um mistério que ele não o tenha publicado" - "um mistério ou uma bênção", que tenha sido publicado agora, nos dez anos da sua morte.
Explicando que "o conto pede que o leitor preste atenção na frase e não na sequência, como no romance, porque o conto funciona como se fosse uma sequência só" e que, por isso, "exige muito do leitor", Lúcia Lepecki deixou um conselho:
"Leiam devagar. O José Cardoso Pires é para ler devagar - deixem as palavras entrar", rematou."



in Expresso online, 09-4-2008 (22:01)

sexta-feira, 21 de março de 2008

O AMOR EM VISITA



Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
e seu arbusto de sangue. Com ela
encantarei a noite.
Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.
Seus ombros beijarei, a pedra pequena
do sorriso de um momento.
Mulher quase incriada, mas com a gravidade
de dois seios, com o peso lúbrico e triste
da boca. Seus ombros beijarei.

Cantar? Longamente cantar,
Uma mulher com quem beber e morrer.
Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave
o atravessar trespassada por um grito marítimo
e o pão for invadido pelas ondas,
seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes
ele - imagem inacessível e casta de um certo pensamento
de alegria e de impudor.

Seu corpo arderá para mim
sobre um lençol mordido por flores com água.
Ah! em cada mulher existe uma morte silenciosa;
e enquanto o dorso imagina, sob nossos dedos,
os bordões da melodia,
a morte sobe pelos dedos, navega o sangue,
desfaz-se em embriaguez dentro do coração faminto.
- Ó cabra no vento e na urze, mulher nua sob
as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe o espírito,
mulher de pés no branco, transportadora
da morte e da alegria.

Dai-me uma mulher tão nova como a resina
e o cheiro da terra.
Com uma flecha em meu flanco, cantarei.

E enquanto manar de minha carne uma videira de sangue,
cantarei seu sorriso ardendo,
suas mamas de pura substância,
a curva quente dos cabelos.
Beberei sua boca, para depois cantar a morte
e a alegria da morte.

Dai-me um torso dobrado pela música, um ligeiro
pescoço de planta,
onde uma chama comece a florir o espírito.
À tona da sua face se moverão as águas,
dentro da sua face estará a pedra da noite.
- Então cantarei a exaltante alegria da morte.

Nem sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estrela
despenhada de sua órbita viva.

- Porém, tu sempre me incendeias.
Esqueço o arbusto impregnado de silêncio diurno, a noite
imagem pungente
com seu deus esmagado e ascendido.
- Porém, não te esquecem meus corações de sal e de brandura.

Entontece meu hálito com a sombra,
tua boca penetra a minha voz como a espada
se perde no arco.
E quando gela a mãe em sua distância amarga, a lua
estiola, a paisagem regressa ao ventre, o tempo
se desfibra - invento para ti a música, a loucura
e o mar.

Toco o peso da tua vida: a carne que fulge, o sorriso,
a inspiração.
E eu sei que cercaste os pensamentos com mesa e harpa.
Vou para ti com a beleza oculta,
o corpo iluminado pelas luzes longas.
Digo: eu sou a beleza, seu rosto e seu durar. Teus olhos
transfiguram-se, tuas mãos descobrem
a sombra da minha face. Agarro tua cabeça
áspera e luminosa, e digo: ouves, meu amor?, eu sou
aquilo que se espera para as coisas, para o tempo -
eu sou a beleza.
Inteira, tua vida o deseja. Para mim se erguem
teus olhos de longe. Tu própria me duras em minha velada beleza.

Então sento-me à tua mesa. Porque é de ti
que me vem o fogo.
Não há gesto ou verdade onde não dormissem
tua noite e loucura,
não há vindima ou água
em que não estivesses pousando o silêncio criador.
Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitos
originais.
Tu dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terra
a carne transcendente. E em ti
principiam o mar e o mundo.

Minha memória perde em sua espuma
o sinal e a vinha.
Plantas, bichos, águas cresceram como religião
sobre a vida - e eu nisso demorei
meu frágil instante. Porém
teu silêncio de fogo e leite repõe
a força maternal, e tudo circula entre teu sopro
e teu amor. As coisas nascem de ti
como as luas nascem dos campos fecundos,
os instantes começam da tua oferenda
como as guitarras tiram seu início da música nocturna.

Mais inocente que as árvores, mais vasta
que a pedra e a morte,
a carne cresce em seu espírito cego e abstracto,
tinge a aurora pobre,
insiste de violência a imobilidade aquática.
E os astros quebram-se em luz sobre
as casas, a cidade arrebata-se,
os bichos erguem seus olhos dementes,
arde a madeira - para que tudo cante
pelo teu poder fechado.
Com minha face cheia de teu espanto e beleza,
eu sei quanto és o íntimo pudor
e a água inicial de outros sentidos.

Começa o tempo onde a mulher começa,
é sua carne que do minuto obscuro e morto
se devolve à luz.
Na morte referve o vinho, e a promessa tinge as pálpebras
com uma imagem.
Espero o tempo com a face espantada junto ao teu peito
de sal e de silêncio, concebo para minha serenidade
uma ideia de pedra e de brancura.
És tu que me aceitas em teu sorriso, que ouves,
que te alimentas de desejos puros.
E une-se ao vento o espírito, rarefaz-se a auréola,
a sombra canta baixo.

Começa o tempo onde a boca se desfaz na lua,
onde a beleza que transportas como um peso árduo
se quebra em glória junto ao meu flanco
martirizado e vivo.
- Para consagração da noite erguerei um violino,
beijarei tuas mãos fecundas, e à madrugada
darei minha voz confundida com a tua.

Oh teoria de instintos, dom de inocência,
taça para beber junto à perturbada intimidade
em que me acolhes.

Começa o tempo na insuportável ternura
com que te adivinho, o tempo onde
a vária dor envolve o barro e a estrela, onde
o encanto liga a ave ao trevo. E em sua medida
ingénua e cara, o que pressente o coração
engasta seu contorno de lume ao longe.
Bom será o tempo, bom será o espírito,
boa será nossa carne presa e morosa.
- Começa o tempo onde se une a vida
à nossa vida breve.

Estás profundamente na pedra e a pedra em mim, ó urna
salina, imagem fechada em sua força e pungência.
E o que se perde de ti, como espírito de música estiolado
em torno das violas, a morte que não beijo,
a erva incendiada que se derrama na íntima noite
- o que se perde de ti, minha voz o renova
num estilo de prata viva.

Quando o fruto empolga um instante a eternidade
inteira, eu estou no fruto como sol
e desfeita pedra, e tu és o silêncio, a cerrada
matriz de sumo e vivo gosto.
- E as aves morrem para nós, os luminosos cálices
das nuvens florescem, a resina tinge
a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã.
E estás em mim como a flor na ideia
e o livro no espaço triste.

Se te apreendessem minhas mãos, forma do vento
na cevada pura, de ti viriam cheias
minhas mãos sem nada. Se uma vida dormisses
em minha espuma,
que frescura indecisa ficaria no meu sorriso?
- No entanto és tu que te moverás na matéria
da minha boca, e serás uma árvore
dormindo e acordando onde existe o meu sangue.

Beijar teus olhos será morrer pela esperança.
Ver no aro de fogo de uma entrega
tua carne de vinho roçada pelo espírito de Deus
será criar-te para luz dos meus pulsos e instante
do meu perpétuo instante.
- Eu devo rasgar minha face para que a tua face
se encha de um minuto sobrenatural,
devo murmurar cada coisa do mundo
até que sejas o incêndio da minha voz.

As águas que um dia nasceram onde marcaste o peso
jovem da carne aspiram longamente
a nossa vida. As sombras que rodeiam
o êxtase, os bichos que levam ao fim do instinto
seu bárbaro fulgor, o rosto divino
impresso no lodo, a casa morta, a montanha
inspirada, o mar, os centauros do crepúsculo
- aspiram longamente a nossa vida.

Por isso é que estamos morrendo na boca
um do outro. Por isso é que
nos desfazemos no arco do verão, no pensamento
da brisa, no sorriso, no peixe,
no cubo, no linho, no mosto aberto
- no amor mais terrível do que a vida.

Beijo o degrau e o espaço. O meu desejo traz
o perfume da tua noite.
Murmuro os teus cabelos e o teu ventre, ó mais nua
e branca das mulheres. Correm em mim o lacre
e a cânfora, descubro tuas mãos, ergue-se tua boca
ao círculo de meu ardente pensamento.
Onde está o mar? Aves bêbedas e puras que voam
sobre o teu sorriso imenso.
Em cada espasmo eu morrerei contigo.

E peço ao vento: traz do espaço a luz inocente
das urzes, um silêncio, uma palavra;
traz da montanha um pássaro de resina, uma lua
vermelha.
Oh amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos,
casa de madeira do planalto,
rios imaginados,
espadas, danças, superstições, cânticos, coisas
maravilhosas da noite. Ó meu amor,
em cada espasmo eu morrerei contigo.

De meu recente coração a vida inteira sobe,
o povo renasce,
o tempo ganha a alma. Meu desejo devora
a flor do vinho, envolve tuas ancas com uma espuma
de crepúsculos e crateras.

Ó pensada corola de linho, mulher que a fome
encanta pela noite equilibrada, imponderável -
em cada espasmo eu morrerei contigo.

E à alegria diurna descerro as mãos. Perde-se
entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro
da tua entrega. Bichos inclinam-se
para dentro do sono, levantam-se rosas respirando
contra o ar. Tua voz canta
o horto e a água - e eu caminho pelas ruas frias com
o lento desejo do teu corpo.
Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo
eu morrerei contigo.




Herberto Helder

quinta-feira, 13 de março de 2008

Alexandre O’Neill

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.





Mal nos conhecemos
Inauguramos a palavra amigo!
Amigo é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece.
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!
Amigo (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
Amigo é o contrário de inimigo!
Amigo é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado.
É a verdade partilhada, praticada.
Amigo é a solidão derrotada!
Amigo é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
Amigo vai ser, é já uma grande festa!

quarta-feira, 12 de março de 2008

Pedro Barroso - Menina dos Olhos de Água




Menina em teu peito sinto o Tejo

e vontades marinheiras de aproar

menina em teus lábios sinto fontes

de água doce que corre sem parar


menina em teus olhos vejo espelhos

e em teus cabelos nuvens de encantar

e em teu corpo inteiro sinto o feno

rijo e tenro que nem sei explicar


se houver alguém que não goste

não gaste - deixe ficar

que eu só por mim quero-te tanto

que não vai haver menina p'ra sobrar


aprendi nos "Esteiros" com Soeiro

aprendi na "Fanga" com Redol

tenho no rio grande o mundo inteiro

e sinto o mundo inteiro no teu colo


aprendi a amar a madrugada

que desponta em mim quando sorris

és um rio cheio de água levada

e dás rumo à fragata que escolhi


se houver alguém que não goste

não gaste - deixe ficar...

que eu só por mim quero-te tanto

que não vai haver menina p'ra sobrar

(música e letra de Pedro Barroso, in álbum "Cantos da borda d'água" 1985)

terça-feira, 11 de março de 2008

Roseira, botão de gente



A força
Que eu tive no momento
Tecendo o teu corpo
A primeira vez
Está agora no teu ventre
Em movimento
No filho que a gente fez


Depois irá pouco a pouco
Ficando maior
Por dentro de ti
E o teu corpo me segreda
Quando toco
Que o meu filho está ali


Eu fui a semente
Tu és o canteiro
Dum cravo de carne
Que tem o meu cheiro
Eu fui o arado
Tu és a seara
Seara de trigo sem fim
Seara lavrada por mim


O que um homem sente
Quando a companheira
Dá flor no presente
Para a vida inteira
É como se o sangue
Fosse uma fogueira
Roseira, botão de gente
Rosa da minha roseira


A vida que tece outra vida
É vida parida
É vida maior
Tens agora a palpitar
A minha vida
No teu ventre, meu amor


Depois
O sangue dos dois
Será vida nova
Será uma flor
Flor de carne a despontar da primavera
Do teu ventre, meu amor



José Carlos Ary dos Santos



segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Há palavras que nos beijam



Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.



Alexandre O'Neill

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Cântico Negro...




"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces

Estendendo-me os braços, e seguros

De que seria bom que eu os ouvisse

Quando me dizem: "vem por aqui!"

Eu olho-os com olhos lassos,

(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)

E cruzo os braços,

E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:

Criar desumanidades!

Não acompanhar ninguém.

— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade

Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí!

Só vou por onde

Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde

Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,

Redemoinhar aos ventos,

Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,

A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi

Só para desflorar florestas virgens,

E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!

O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós

Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem

Para eu derrubar os meus obstáculos?...

Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,

E vós amais o que é fácil!

Eu amo o Longe e a Miragem,

Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,

Tendes jardins, tendes canteiros,

Tendes pátria, tendes tetos,

E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...

Eu tenho a minha Loucura !

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,

E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!

Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;

Mas eu, que nunca principio nem acabo,

Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,

Ninguém me peça definições!

Ninguém me diga: "vem por aqui"!

A minha vida é um vendaval que se soltou,

É uma onda que se alevantou,

É um átomo a mais que se animou...

Não sei por onde vou,

Não sei para onde vou

Sei que não vou por aí!



José Régio

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"Horta do Zorate" é o blogue pessoal de Alberto João (Catujaleno), cidadão do mundo em autoconstrução desde 1958.