Destas mãos que falam, saem gritos d'alma, gemidos de dor, às vezes, letras com amor, pedaços da vida, por vezes sofrida, d'um quase iletrado escritor. Saem inquietações, também provocações, com sabor, a laranjas ou limões. Destas mãos que falam, saem letras perdidas, revoltas não contidas, contra opressões, das nossas vidas! (Alberto João)

quinta-feira, 23 de maio de 2024

A AMANTE



 

Alguns anos depois de eu nascer, o meu pai conheceu uma estranha recém-chegada à nossa pequena aldeia. Desde o início, o meu pai ficou fascinado com aquela adorável novata e depois convidou-a para morar connosco.
A estranha aceitou e, surpreendentemente, a minha mãe também! Enquanto eu crescia, na minha mente jovem, ela já tinha um lugar muito especial.
A minha mãe ensinou-me o que era bom e mau e o meu pai ensinou-me a obedecer. Mas a estranha era mais forte; adorávamos passar horas a falar de aventuras e mistérios. Ela sempre tinha respostas para tudo o que queríamos saber.
Sabia tudo sobre o passado, o presente e até podia prever o futuro! O irritante era que não podíamos discordar dela. Ela sempre tinha a última palavra!
Foi ela que levou a minha família ao primeiro jogo de futebol. Fez-nos rir e chorar.
A estranha quase nunca parava de falar. Mas o meu pai amava-a. A minha mãe, que até estava com ciúmes, disse-nos para ficarmos calados para podermos ouvi-la.
Eu costumava levá-la para o quarto e dormir com ela. A minha mãe não gostava, mas aceitava. Agora pergunto-me se a minha mãe alguma vez rezou para que ela fosse embora.
O meu pai dirigia a nossa casa com fortes convicções morais, mas a estranha não era obrigada a segui-las.
Brigas e palavrões não eram permitidos na nossa família, nem pelos nossos amigos, nem por ninguém que nos visitasse. No entanto, ela usava a sua linguagem inapropriada, que por vezes queimava os meus ouvidos e fazia o meu pai e a minha mãe corarem.
O meu pai nunca nos deu permissão para beber e fumar, mas ela incentivou-nos e disse que isso nos diferenciava na sociedade.
Falava livremente (talvez demais) sobre sexo. Agora sei que os meus conceitos de relacionamento foram fortemente influenciados por ela durante a minha adolescência.
Muitas vezes criticávamos-na, mas ela não se importava e não queria sair da nossa casa. Mas nós também estávamos a conspirar com toda esta situação.
Faz mais de cinquenta anos que a estranha veio para a nossa família. Desde então, muito mudou, mas ela ainda é jovem, prática, linda e elegante.
Ela está em casa, tranquila, à espera que alguém ouça as suas conversas ou dedique o seu tempo livre a fazer-lhe companhia, a admirá-la.
O seu nome?
A TELEVISÃO...
Agora ela tem um marido chamado Computador e tiveram um filho chamado Tablet e um neto chamado Telemóvel.
A estranha agora tem uma família...
E a nossa? Cada um mais longe do outro...
(autor desconhecido)


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"Horta do Zorate" é o blogue pessoal de Alberto João (Catujaleno), cidadão do mundo em autoconstrução desde 1958.