Destas mãos que falam, saem gritos d'alma, gemidos de dor, às vezes, letras com amor, pedaços da vida, por vezes sofrida, d'um quase iletrado escritor. Saem inquietações, também provocações, com sabor, a laranjas ou limões. Destas mãos que falam, saem letras perdidas, revoltas não contidas, contra opressões, das nossas vidas! (Alberto João)

sábado, 18 de outubro de 2008

Vítor Baptista 'O Maior' faria hoje 60 anos...


"Chamaram-lhe muitas coisas. ‘O rapaz do brinco’. Génio. Louco. Nos tempos do V. Setúbal, dois colegas deram com ele frente a um espelho, durante um estágio, a falar para a própria imagem: "Ó meu Deus, porque me fizeste tão belo?" A alcunha ficou, ‘Meu Deus’. Devido a uma certa fanfarronice, também lhe chamavam ‘Gargantas’. Mas para si mesmo era apenas ‘O Maior’. E isso resumia a sua vida. O maior, para o Bem e para o Mal.

Se fosse vivo, Vítor Baptista faria hoje 60 anos. Nasceu em Setúbal e no Vitória iniciou-se no futebol aos 13 anos, quando já trabalhava como electricista. No percurso juvenil de-senvolveu qualidades acima da média e aos 18 anos o seleccionador José Maria Pedroto chamou-o à selecção de juniores. Estávamos em 1967, ano de outra estreia, na equipa sénior do Vitória, contra o Leixões, em jogo da Taça de Portugal. Era ainda júnior e do clube recebia em géneros: refeições pagas na Pensão Vitória.

A emergência de um talento que não tardaria a ser cobiçado obrigou os dirigentes a oferecer-lhe contrato profissional. 'Dois contos e quinhentos por mês', recorda Fernando Tomé, antiga glória do futebol sadino e o melhor amigo de Vítor Baptista nesses tempos. 'Tratávamo-nos por ‘irmão’. Houve um jornalista que um dia até nos chamou ‘irmãos siameses’.' Tomé relembra o Vítor Baptista desses tempos como 'um menino grande'. 'Para ele, a vida era uma brincadeira, um grande jogo. Tinha coração de ouro, dava a camisa pelos amigos, mas não levava as coisas a sério. Isso haveria de ser-lhe fatal.'

Após avançar do meio-campo para o ataque, Vítor Baptista marcou 33 golos pelo V. Setúbal em duas épocas. Era o jogador mais cobiçado do futebol português, com o passe avaliado em 6 mil contos. Uma fortuna em 1971. O Vitória fazia tudo para segurar a pérola mas era impossível. Surgem notícias de conversações com o Sporting, e isso bastou para o Benfica ‘perder a cabeça’:ofereceu uma das suas estrelasde sempre, José Torres, juntou-lhe dois jogadores de bom potencial, Matine e Praia, acrescentou 3 mil contos – e ganhou a corrida.

Na Luz, Vítor Baptista viria a conquistar cinco títulos de campeão nacional. Jogava na Selecção, ganhava bom dinheiro – e fazia todos os dias a viagem entre Setúbal e Lisboa no seu fantástico Jaguar 4.2, um ícone automobilístico da época. Estava no topo.

Sem que se saiba muito bem quando e onde, Vítor Baptista iniciou então uma descida vertiginosa ao Inferno. Enquanto o corpo aguentou, conciliou futebol e vícios. Voltou ao V. Setúbal, jogou no Boavista, andou por divisões secundárias – e acabou perdido nos distritais. Onde já só recebia uma sandes como ‘ordenado’. Para alimentar a dependência da droga e do álcool, começou a roubar. Foi condenado e esteve preso. Mãos amigas tentaram ajudá-lo mas já era demasiado tarde. Morreu com 50 anos. Passou pela vida quase à velocidade da bola saída dos seus pés. Ou terá sido a vida que passou por ele?

PERFIL

Vítor Baptista começou a jogar futebol nas escolas do V. Setúbal com 13 anos. Com idade de júnior, estreou-se na equipa sénior (1967). Jogou no Benfica de 1971/72 a 1977/78. Voltou ao V. Setúbal (1979). Seguiram-se Boavista, Earth Quakes (Estados Unidos), Amora, Montijo, U. Tomar, Monte da Caparica – e acabou no Estrelas do Faralhão, equipa dos regionais de Setúbal, em 1985/86

UMA VIDA DIFERENTE

O isqueiro de Pedroto: Ao serviço do V. Setúbal, Vítor Baptista teve uma tarde de glória nas Antas. Ao intervalo do jogo com o FC Porto, Pedroto, treinador sadino, acendeu um cigarro com um isqueiro de ouro que V. Baptista cobiçou. O técnico promete-lhe a preciosidade se ele marcar dois golos. Ele marcou mesmo e ao segundo correu para o banco a reivindicar o prémio.

Motorista com boné: Vítor Baptista mudou-se para o Benfica mas continuou a morar em Setúbal. Comprou um Jaguar e nos primeiros tempos arranjou um motorista para o conduzir aos treinos. Um motorista com boné.

História de fim triste: Quando a sua vida já era um pântano, Vítor Baptista trabalhou, por caridade da Câmara de Setúbal, num jardim e depois no cemitério. Vivia numa barraca. Mas dizia-se rico. 'Nasci nu e agora tenho um trapo para me vestir. Vou mais rico desta vida do que quando vim ao Mundo.'

ESTÓRIAS DE UM PERCURSO ACIDENTADO

O brinco: A história do brinco é incontornável. Perdeu-o num dérbi após marcar o golo do Benfica que deu a vitória sobre o Sporting. Nunca o encontrou e no final do jogo queixou- -se: 'Perco dinheiro a trabalhar. O brinco valia 12 contos e o prémio de jogo são só 8.'

O ‘Maior’: Em Outubro de 1976, Vítor Baptista renova pelo Benfica. Dá então uma entrevista ao jornal ‘A Bola’ que faz história. A uma pergunta do jornalista Joaquim Rita, responde: 'Sou o melhor jogador português. Há outros bons, como o Chalana, mas eu sou o melhor.' Nascia uma lenda.

Rebelde: O episódio ficou conhecido como ‘o caso de Chipre’. Antes de um jogo entre selecções, Vítor Baptista chegou atrasado a um treino. Após a chamada de atenção, insulta Juca, o seleccionador. Chama 'malucos' aos colegas. Nunca mais jogou na Selecção.

Adeus à Luz: Em 1977, sai do Benfica porque exige 650 contos mensais. O clube dá 450 e um Porsche Carrera. Recusa e regressa a Setúbal, por 100 contos/mês. Já no Boavista, ‘vinga-se’ com um golo na vitória por 2-1, na Luz.

MEMÓRIAS

Toni (treinador e ex-colega no Benfica): O Vítor Baptista era um jogador de ontem e de hoje. Nos nossos dias seria pago a peso de ouro, pois tinha aptidões físicas e técnicas fora do comum. Foi uma lástima vê-lo entrar no mundo da droga. Era um ser solidário e muito amigo do seu amigo. Algumas ‘amizades’ levaram-no ao abismo.

Octávio (ex-colega no V. Setúbal): Sempre revelou uma forma muito própria de estar na vida. No momento certo faltou- -lhe uma voz amiga. Os clubes, naquele tempo, não estavam preparados para lidar com algumas situações. O que aconteceu depois é lamentável. Prefiro recordá-lo como o grande jogador que foi.

Tomé (ex-colega no V. Setúbal): Era um bom coração. No regresso a Setúbal, depois de jogar no Benfica, não quis jogo de apresentação. Preferiu uma tourada, que ele próprio organizou. A receita, fez saber, seria metade para ele e metade para o Asilo Paula Borba. Mas nunca houve tourada porque se esqueceu de arranjar os touros. Era assim o Vítor."
in CM online, 18-10-2008

Sem comentários:

Contador, desde 2008:

Localizador, desde 2010:

Acerca de mim

A minha foto
"Horta do Zorate" é o blogue pessoal de Alberto João (Catujaleno), cidadão do mundo em autoconstrução desde 1958.