Destas mãos que falam, saem gritos d'alma, gemidos de dor, às vezes, letras com amor, pedaços da vida, por vezes sofrida, d'um quase iletrado escritor. Saem inquietações, também provocações, com sabor, a laranjas ou limões. Destas mãos que falam, saem letras perdidas, revoltas não contidas, contra opressões, das nossas vidas! (Alberto João)

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

JOSÉ RÉGIO DEIXOU-NOS HÁ 51 ANOS

A 22 de dezembro de 1969, morre, em Vila do Conde, o escritor português José Régio, pseudónimo de José Maria dos Reis Pereira.

Régio abordou diversas formas literárias: a poesia, o texto dramático e a ficção em prosa. Escreveu, ainda, Correspondência, Ensaios, Críticas e História da Literatura.

Em 1926, publica o seus primeiros textos poéticos: Poemas de Deus e do Diabo.

A sua obra Benilde ou a virgem-mãe estreia a 15 de novembro de 1947, no Teatro Nacional, em Lisboa, encenada por Amélia Rey-Colaço. Em 1975, Manoel de Oliveira haveria de realizar um filme baseado neste drama.

Na ficção, poderemos salientar Davam grandes passeios aos domingos(1941), considerada uma das suas obras mais relevantes.

Em 1965, Amália Rodrigues grava um LP que receberia o nome da composição de abertura: Fado português, da autoria de José Régio.

 Em conjunto com Branquinho da Fonseca e João Gaspar Simões, funda, em 1927, a revista Presença, que viria a ser publicada, de forma irregular, durante treze anos. Esta revista impulsionaria o segundo modernismo português.

Régio escreveu em praticamente todos os jornais e revistas importantes da sua época, sendo digna de relevo a sua participação na Seara Nova.


Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

Solstício de Inverno 2020 em Portugal


Hoje, segunda-feira, 21 de dezembro de 2020, pelas 10h02m, ocorre o Solstício de Inverno no hemisfério norte.





O Solstício de Inverno é um fenómeno astronómico que acontece todos os anos ao dia 21 ou 22 de dezembro.
Esta data marca o início do inverno no hemisfério norte e do verão no hemisfério sul.
Este dia é o dia mais curto do ano e consequentemente a noite mais longa do ano.
Os solstícios ocorrem duas vezes ao ano - no dia 20 ou 21 de 
junho acontece o solstício de verão, e no dia 21 ou 22 de dezembro ocorre o solstício de inverno.



 

Solstícios: pontos da eclíptica em que o Sol atinge as alturas (distância angular) máxima e mínima em relação ao equador, isto é, pontos em que a declinação solar atinge extremos: máxima no solstício de Verão (+23° 26′) e mínima no solstício de Inverno (-23° 26′). 
A palavra de origem latina (Solstitium) associa-se ao facto do Sol travar o movimento diário de afastamento ao plano equatorial e “estacionar” ao atingir a sua posição mais alta ou mais baixa no céu local.


segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Ribeiro Santos foi assassinado pela PIDE há 48 anos



José António Ribeiro Santos foi um conhecido dirigente estudantil, militante de uma organização maoista então na clandestinidade, o MRPP. 

A sua morte pesou enormemente no movimento estudantil e revolucionário daquela época, mobilizou um grande número de pessoas até então não despertas para a luta política e o seu funeral transformou-se numa grande batalha contra o fascismo e contra a guerra colonial. 

O exemplo político e o exemplo do carácter pessoal de Ribeiro Santos perduraram durante décadas e, apesar das actuais tentativas para os diluir ou mistificar, continuam bem fundas no coração dos revolucionários e antifascistas portugueses.




 

Vararam-te no corpo e não na força
e não importa o nome de quem eras
naquela tarde foste apenas corça
indefesa morrendo às mãos das feras.

Mas feras é demais. Apenas hienas
tão pútridas tão fétidas tão cães
que na sombra farejam as algemas
do nome agora morto que tu tens.

Morreste às mãos da tarde mas foi cedo.
Morreste porque não às mãos do medo
que a todos pôs calados e cativos.

Por essa tarde havemos de vingar-te
por essa morte havemos de cantar-te:
Para nós não há mortos. Só há vivos.

(José Carlos Ary dos Santos)



quinta-feira, 24 de setembro de 2020

GRIPE ESPANHOLA - EM MEMÓRIA DOS MEUS AVÓS MANUEL JOÃO E ELVIRA DOS ANJOS



A gripe espanhola, também conhecida como gripe de 1918, foi uma vasta e mortal pandemia do vírus influenza.

De janeiro de 1918 a dezembro de 1920, infetou cerca de 500 milhões de pessoas, um quarto da população mundial na época.

Estima-se que o número de mortos esteja entre os 50 milhões e os 100 milhões, tornando-a uma das pandemias mais mortais da história da humanidade.

A gripe espanhola foi a primeira de duas pandemias causadas pelo influenza vírus H1N1, sendo a segunda ocorrida em 2009.

 Durante a Primeira Guerra Mundial, os países aliados frequentemente chamaram a pandemia de "gripe espanhola."

Isso ocorreu principalmente pois a pandemia recebeu maior atenção da imprensa em Espanha do que no resto do mundo, uma vez que o país não estava envolvido na guerra e não havia censura.

Em Espanha, recebeu o nome de "gripe francesa."

Em Portugal é mais conhecida como "gripe pneumónica" ou simplesmente "a pneumónica".

Em Espanha teve um dos piores surtos iniciais da doença, e autoridades de saúde do país chamaram a pandemia de "apenas gripe" ou "a gripe", de modo a evitar o pânico entre a população.

Embora os cientistas não saibam ao certo a origem da pandemia, é improvável que tenha iniciado na Espanha.

A maioria dos surtos de gripe mata desproporcionalmente os mais jovens e os mais velhos, com uma taxa de sobrevivência mais alta entre os dois, mas a pandemia de gripe espanhola resultou numa taxa de mortalidade acima do esperado para adultos jovens. 

Os cientistas deram várias explicações possíveis para esta alta taxa de mortalidade de 2 a 3%.

Algumas análises mostraram que o vírus foi particularmente mortal por desencadear uma tempestade de citocinas que destrói o sistema imunológico mais forte de adultos jovens.

Por outro lado, uma análise de 2007 de revistas médicas do período da pandemia descobriu que a infecção viral não era mais agressiva que as estirpes anteriores de influenza.

Em vez disso, asseveraram que a desnutrição, falta de higiene e os acampamentos médicos e hospitais superlotados promoveram uma superinfeção bacteriana, responsável pela alta mortalidade.

Em Portugal, terão morrido com a "gripe espanhola" cerca de 120 mil pessoas.

Os meus avós paternos Manuel João e Elvira dos Anjos, residentes na aldeia de Asnela, freguesia de Vilares, concelho de Murça, foram dois dos portugueses que não resistiram a esta "gripe pneumónica".

Por isso, curvo-me humildemente perante as suas memórias. 




 

terça-feira, 22 de setembro de 2020

HOJE COMEÇA O OUTONO 2020 EM PORTUGAL



Hoje, terça-feira, 22 de setembro de 2020, ocorre o Equinócio do Outono, precisamente às 14h31.
O Equinócio do Outono é o nome que se utiliza na astronomia para o fenómeno que marca o final do Verão e chegada da nova estação, o Outono.
O Equinócio de Outono assinala o instante em que o sol, tal como o vemos a partir da Terra, cruza o plano do equador celeste, o que se verifica em Setembro no hemisfério norte (Portugal, por exemplo) e em Março no hemisféri
o sul (Brasil, como exemplo). 
O Outono do hemisfério norte é o "Outono Boreal" enquanto o Outono do hemisfério sul chama-se "Outono Austral".
O Outono de 2020 termina às 10h02 do dia 21 de Dezembro, dando lugar ao Inverno.
Votos de um Outono 2020 (para os leitores que estão no hemisfério norte) e uma Primavera 2020 (para os leitores que estão no hemisfério sul) com muitos momentos Felizes! 
Bom dia! 



 

terça-feira, 18 de agosto de 2020

TEMPO

 Ontem o tempo foi meu

Aqui e agora o tempo mudou

Aos olhos dos tempos, o mesmo não sou

A esperança bom tempo prometeu

Mas o tempo mau, bom tempo adiou.






Alberto João, Muge, 17 de Agosto de 2020

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Faz hoje 45 anos que o PCP fez de mim um preso político



No dia 28 de Maio de 1975, forças do COPCON (Comando Operacional do Continente), comandadas por Otelo Saraiva de Carvalho, mas cumprindo ordens de Álvaro Barreirinhas Cunhal, na altura chefe do PCP, invadiram várias sedes do MRPP (Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado), incluindo a sede nacional na Avenida Álvares Cabral (que liga o Largo do Rato à Estrela), em Lisboa, e prenderam, sem mandado judicial, cerca de 400 militantes daquela força politica que se encontravam a fazer trabalho politico em diversos locais.

Ao contrário daquilo que viria a fazer Otelo, uns anos depois (ironias do destino!?), os militantes do MRPP não faziam terrorismo. Não assaltavam bancos. Não eliminavam pessoas fisicamente. A sua luta era outra. Era a luta das ideias.

O MRPP tinha uma forte implantação na juventude, particularmente na estudantil, que enfrentava e assustava o PCP que queria instalar em Portugal um "paraíso" modelo soviético.

 - Otelo Saraiva de Carvalho -

Eu tinha 17 anos de idade, e fui um dos detidos. Estava a cometer o 'grave crime' de colaborar na feitura da secção cultural do "Luta Popular", o jornal do Movimento.

Já lá vão 45 anos, mas não consigo esquecer tamanha barbaridade.

Quando vejo dirigentes do PCP na televisão a falarem em falta de liberdade, fico revoltado com esses senhores.

Acontecimentos ocorridos no mesmo dia (28 de Maio de 1975), que ajudam a perceber o ataque ao MRPP:

- Manifestação de apoio ao MFA convocada pelo PCP, MDP e Intersindical, com discurso gratulatório de Costa Gomes (homem do PCP).

- Brigadeiro Vasco Gonçalves (homem do PCP) é promovido a general.

- Brigadeiro Otelo Saraiva de Carvalho (na altura leal ao PCP) é graduado no posto de general.

- Capitão Vasco Lourenço (homem do sector moderado, não alinhado ao PCP), porta-voz do Conselho da Revolução, assegura que o «processo revolucionário em curso não é propriedade de nenhum partido político».



- Álvaro Barreirinhas Cunhal, o prisioneiro que virou carcereiro -




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"Horta do Zorate" é o blogue pessoal de Alberto João (Catujaleno), cidadão do mundo em autoconstrução desde 1958.