Destas mãos que falam, saem gritos d'alma, gemidos de dor, às vezes, letras com amor, pedaços da vida, por vezes sofrida, d'um quase iletrado escritor. Saem inquietações, também provocações, com sabor, a laranjas ou limões. Destas mãos que falam, saem letras perdidas, revoltas não contidas, contra opressões, das nossas vidas! (Alberto João)

sábado, 2 de julho de 2011

As aventuras e desventuras dos maoistas portugueses


«Estávamos em 75, no ano mais quente da revolução. Uma camioneta com mobiliário retirado da Faculdade de Direito de Lisboa chega à porta da sede do Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado (MRPP). A comandar a expropriação revolucionária está o camarada Abel (Durão Barroso). Depois de um breve confronto com "o guia do proletariado", o camarada Arnaldo Matos, o militante é obrigado a devolver o mobiliário às salas da universidade.

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O actual presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, é o mais célebre do ex-maoistas. Não porque tenha sido o maior dos adeptos de Mao Tsé Tung, mas porque é aquele que mais importante se tornou na actualidade. O ex-primeiro-ministro do PSD foi militante e dirigente da Federação dos Estudantes Marxistas-Leninistas (FEML), braço estudantil do MRPP, fundado por Fernando Rosas, que editava o "Guarda Vermelho". O MRPP tem origem nos Comités Vietname, que em 21 de Fevereiro de 1968 realizaram uma manifestação frente à embaixada dos Estados Unidos da América, posteriormente transformados na Esquerda Democrática Estudantil. No início dos anos 70, eram hegemónicos num bom número das faculdades de Lisboa. Tinham como bastião a Faculdade Direito de Lisboa, no anedotário da época transformada num pagode chinês. Um dos momentos marcantes da história do MRPP foi o assassinato pela PIDE do seu dirigente, José Ribeiro Santos, durante um plenário estudantil em Económicas (actual ISEG), a 12 de Outubro de 1972. No tiroteio fica morto Ribeiro dos Santos e ferido José Lamego, na altura militante do MRPP e que foi secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros do governo de António Guterres. O vão acusar o PCP de o ter morto a meias com a PIDE. "O fascismo apertou o gatilho e o revisionismo apontou-lhes o alvo - tal é a justa apreciação da sinistra confabulação das forças da classe contra-revolucionária que assassinaram o grande bolchevique José António Ribeiro Santos", garantia a publicação "Honra ao camarada Ribeiro Santos, o povo não te esquecerá!".

O empresário Jorge Coelho, o ministro Nuno Crato, o antigo ministro das Universidades Mariano Gago, até o ex-ministro da Administração Interna Rui Pereira, a mediática procuradora Maria José Morgado, o jornalista José Manuel Fernandes, o historiador Pacheco Pereira são alguns dos muitos ex-maoistas que atingiram posições de destaque na vida económica, académica e política. São muitos e conhecidos, pela simples razão de que os maoistas foram numerosos na década de 70. De 1964 até aos dia de hoje, há registo de dezenas de organizações maoistas no país; um estudo do investigador Miguel Cardina ("O essencial sobre a esquerda radical") recenseia cerca de 70 organizações ligadas a esta corrente ideológica.

Pacheco Pereira (ver post anterior) defende que o maoismo em Portugal provém de dois momentos diferentes: um primeiro devido à ruptura entre chineses e soviéticos, que leva a uma cisão do PCP, e um segundo momento, posterior a 1968, devido à radicalização de sectores da juventude, influenciados pela Revolução Cultural Chinesa e pelo Maio de 1968 em França.

Em 1964, a ruptura sino-soviética leva alguns militantes do PCP, como Francisco Martins Rodrigues, membro do executivo do PCP no interior do país, a romper com o partido. Numa reunião do comité central do PCP em Moscovo em Agosto de 1963, para preparação do VI Congresso, Martins Rodrigues expressa a sua divergência em três pontos fundamentais: defende um levantamento nacional para derrubar a ditadura, aposta na luta armada como uma das formas de luta e critica a estratégia de unidade do PCP com sectores da burguesia no combate ao fascismo, afirmando a necessidade de reforçar "o protagonismo do proletariado". No fundo, tratava-se de adaptar à realidade nacional os slogans da liderança chinesa, na contestação à política soviética da "coexistência pacífica" entre países comunistas e capitalistas na era das armas atómicas.

Um antigo director do "Público", o jornalista José Manuel Fernandes, tinha 11 anos quando se deu o Maio de 68. Quando entrou no liceu começou a frequentar reuniões. A adesão ao maoismo deveu-se à sua necessidade de contestar o regime de uma forma radical e por reacção a uma oposição "chata" que o PCP simbolizava. "Fui a uma ou duas reuniões, regra geral as intervenções mais chatas eram feitas por pessoas ligadas ao PCP, como o Miguel Portas, e identifiquei-me com pessoas com um discurso mais radical e apelativo." A sua militância política começa ligada à acção contra a guerra colonial, na órbita da CMLP (Comité Marxista-Leninista Português), na UEC (ML) (União de Estudantes Comunistas Marxistas-leninistas), cujos membros eram conhecidos no meio estudantil como os Pops, devido à sua plataforma por um ensino popular. Adere ao PCP (ML), facção Mendes, o mesmo em que milita Pacheco Pereira, e depois do 25 de Abril chega em 1976 ao secretariado da UEDP (União dos Estudantes Democráticos e Populares), organização de juventude da UDP, com o actual ministro da Educação, Nuno Crato.

José Manuel Fernandes diz que nas vésperas do 25 de Abril o PCP já tinha recuperado influência em algumas das faculdades (Económicas e Medicina) e dividia a popularidade com estudantes de vários sectores maoistas. "Os trotskistas ou os ''trouxas'', como a gente lhes chamava, eram muito poucos." Esta concorrência era encarniçada, mas não se fazia sem regras: "Tínhamos como adquirido que quando num plenário de estudantes criticávamos alguém do PCP não lhe podíamos chamar ''revisionista'' devido ao perigo de o estar a identificar para os bufos da PIDE. Ficávamos pelo menos claro ''reformista''." Em 16 de Dezembro de 1973, 150 estudantes do secundário reunidos na instalações da Faculdade de Medicina são cercados pela polícia e mais de 50 são detidos. Dormem uma noite na cadeia, "tirando uns poucos, como a Eugénia Varela Gomes, que ficam presos em Caxias", recorda José Manuel Fernandes. A todos os rapazes, com idades à volta dos 16 anos, é cortado pela polícia o cabelo com máquina zero. A carecada tanto é dada ao PCP Miguel Portas como ao maoista José Manuel Fernandes.

A primeira experiência de jornalismo têm-na já depois da revolução. Durante a campanha do Otelo funda-se o jornal com o pequeno título "O 25 de Abril do Povo". "Era para ser um diário, mas passa a semanário e dura só três meses." Depois disso dá-se a reorganização do jornal da UDP "A Voz do Povo". João Carlos Espada, do comité central da UDP, vai dirigir o jornal e José Manuel Fernandes acompanha-o. Diz o jornalista que na altura já não se considerava maoista. "Lembro-me de dois momentos que me fizeram mudar de ideias: o enterro de Mao, em que a nova direcção apagou das fotos a viúva de Mao e os seus apoiantes (o chamado Bando dos Quatro)" e uma das purgas do poder na Albânia, em que foi expulso e posteriormente "suicidado", o antigo primeiro-ministro albanês Mehmet Shehu. "Essas coisas impressionaram-me, acusarem o tipo de triplo espião russo, da CIA e do Vaticano. Simplesmente não podia ser verdade", diz o jornalista. Era duro ser jornalista/militante. "Recebíamos menos que o salário mínimo. Tínhamos de fazer a lista das nossas despesas e davam-nos um salário de acordo com elas. Daí as discussões homéricas entre fumadores e não fumadores, porque os primeiros recebiam mais", lembra, sorrindo.

O trabalho na "Voz do Povo" não se fez sem incidentes. "A certa altura cindimos com o PC(R), o jornal chega a estar cercado", afiança. A "Voz do Povo" continua a ser impressa mais uns meses, até acabar o dinheiro. "Na altura passámos a imprimi-lo na sede do PSR." Na sua redacção passam nomes como Henrique Monteiro, ex-director do "Expresso", ou Manuel Falcão, que chegou a chefe de gabinete de Santana Lopes, quando este foi primeiro-ministro. Durante as eleições presidenciais de 1980, João Carlos Espada apela em editorial no voto em Otelo e José Manuel Fernandes, chefe de redacção, defende o voto útil em Soares Carneiro. O ano de 1981 vai encontrar os dois na fundação do Clube da Esquerda Liberal, com Pacheco Pereira e Manuel Villaverde Cabral. José Manuel Fernandes concorda que o processo de evolução política dos maoistas portugueses tem algum paralelo com a ida para a direita dos maoistas franceses que se converteram nos "novos filósofos", que defendem a economia liberal, mas realça algumas diferenças: "Em meu entender, a maioria dos maoistas pura e simplesmente saiu da actividade política. Votam PS ou até em partidos como o Bloco." Reconheça contudo que há um grupo, ao qual ele pertence, que evolui para "posições mais à direita".

A verdade é que, se nos livrámos do maoismo, não conseguimos fugir do poder dos ex-maoistas. Fortes nas universidades, fazem parte da actual elite do poder. Que o diga José Manuel Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia, que escrevia no "Luta Popular" de 2 de Abril de 1975, o artigo titulado "Que Viva Estaline", em que, para combater o desvio da "linha negra" de Maria José Morgado e Saldanha Sanches escrevia: "O camarada Saldanha Sanches é que não se demarca dos oportunistas, nem pouco mais ou menos, não resistiu à contraprova do campo magnético; mal se falou em Estaline começou a hesitar, titubeou, hesitou, indo cair no campo da contra-revolução, arrastado pelo poderoso campo magnético de que fala o Comité Lenine na sua Directiva." Se trocarmos "euro" por "Estaline", nem mudou assim tanto.»


por Nuno Almeida, jornal i online, 02-7-2011

Pacheco Pereira: "Reuni muitas vezes com um capuz enfiado na cabeça"


«Ainda bem que me faz essa pergunta sobre esse excerto do livro da Zita Seabra que sistematicamente é reproduzido e que não é verdadeiro. Bastava ler com atenção para perceber que há ali um enorme anacronismo. Os acontecimentos a que se refere a citação são de 1966 e a fundação do PCP (ML) no Norte é de 1972. Ora seis anos naquela altura são seis séculos. A citação é mais reveladora da mentalidade de um PC sobre as mudanças que se estavam a dar do que propriamente rigorosa sobre o meu caso. Conheci a Zita Seabra numa tentativa minha de levar a pró-associação de estudantes de liceu para a escola em que eu andava, a Alexandre Herculano. A pró-associação não tinha influência no Porto e era estritamente controlada pelo PCP. Participei em poucas reuniões, uma das quais na casa da família Cortesão, e foi aí que conheci a Zita Seabra. Colaborei no boletim associativo que existia, até fiz uma tradução do Paul Éluard que foi publicada. Nunca quis entrar no PCP, mas compreendo a mentalidade da citação sobre mim, é de alguém que está habituado a uma concepção burocrática do movimento estudantil, que não concebe o activismo da oposição a não ser nos quadros do PCP.




Está a falar do maoismo como uma ruptura cultural e de parte de uma geração como o PCP, mas no seus primórdios o maoismo nasce como uma cisão do PCP quanto à questão da China e é do ponto de vista cultural muito próximo da casa mãe.

No livro que eu publiquei sobre o início do movimento marxista-leninista na Europa, "O Um Dividiu-se em Dois", falo de uma distinção entre aqueles que rompem com o PCP porque são pró-chineses e aqueles que vão ser os "maoistas". Os primeiros apoiavam as teses do Partido Comunista Chinês, que renegam a coexistência pacífica, e defendem as teses da necessidade de uma revolução violenta, considerando que no plano internacional se verificava um levantamento no terceiro mundo contra os imperialismos soviético e norte-americano. O movimento pró-chinês, que é em grande parte constituído por gente que veio dos partidos comunistas, é um movimento de reforma dos partidos comunistas.

Há uma segunda fase, posterior à revolução cultural e ao Maio de 68, e aí o objectivo já não é combater o revisionismo dos partidos comunistas, mas muito mais do que isso. Os seus activistas reivindicam novas formas culturais e de organização. Essa diferença expressa-se pela imitação de algumas práticas que pareciam estar a passar na Revolução Cultural Chinesa ou daquilo que na Europa se imaginava: algumas frases, slogans e textos. Sobretudo uma ideia de espontaneidade e de intervenção directa das massas.

A distinção não se faz também em relação à origem de classe dos sectores sociais que aderem a estes dois tipos de maoismo?

Também. Uma das grandes fragilidades do esquerdismo português, que era muito forte à data do 25 de Abril, é que era essencialmente estudantil e, usando uma categoria em voga na época, "pequeno- -burguês", e não conseguia competir em todos os terrenos com o PCP, que tinha operários, camponeses, intelectuais, gentes das profissões urbanas liberais, empregados. As razões de recrutamento dos pró-chineses, da primeira fase, são diferentes das dos maoistas. Estes últimos são recrutados no meio da revolta estudantil geral que se manifestou nos EUA e na Europa.

O que atraía esses estudantes?

Uma certa interpretação anti-estalinista do estalinismo, que era uma coisa que seduzia muito os intelectuais da época. Contavam-se histórias emblemáticas sobre isso, como o caso da edição do livro de Li Shao-Chi (presidente da China entre 1960 e 1965, caído em desgraça durante a Revolução Cultural). O livro dele "Como Ser Um Bom Comunista" teria sido reeditado em milhões de exemplares com uma faixa a dizer: "Ler para criticar". Estas historietas indiciavam uma diferença em relação ao estalinismo, em que no livro pura e simplesmente desapareceria.

Isso parece contraditório em relação ao facto de na ruptura sino-soviética um dos argumentos de fundo ser a afirmação de que os russos teriam traído os ensinamentos de Estaline.

A China tinha sofrido com a tentativa de Estaline de controlar o Partido Comunista Chinês. A Revolução Cultural chinesa é vista por muitos jovens como um processo de rectificação num país socialista. Esta mescla de ideias, slogans e mitos era muito atractiva para os estudantes e também para muitos jovens operários. O recrutamento fora das universidades é sobretudo feito em sectores mais jovens da classe operária. Essa influência geracional explica que nas vésperas do 25 de Abril o PCP tivesse perdido grande parte da sua influência na universidade, embora tentando, com a criação da UEC, retomar esse controlo. Na maioria das faculdades o PCP tinha perdido a hegemonia que tinha desde os anos 30. É preciso relembrar que se assistia ao fim da liberalização caetanista, um número importantes de jovens começa a politizar o movimento estudantil e a entrar em organizações clandestinas. O que explica o crescimento do MRPP em Lisboa e do PCP (ML) e do Grito do Povo a Norte. São organizações todas elas posteriores a 1970.

Mas são organizações importantes na época?

Nos trabalhos que tenho feito sobre a extrema-esquerda, na parte das biografias, estou a trabalhar com 3 mil a 3500 biografias. Não são todas de maoistas, retirando outros elementos da extrema-esquerda, trotskistas, guevaristas, etc., que são menos de 500. Restam uma grande maioria que são maoistas. A fragmentação das organizações faz com que a sua força pareça menor. Se os juntássemos a todos, veríamos que o esquerdismo em Portugal tinha uma grande importância. Aliás, veja, Portugal é o único país europeu que elegeu um deputado pró- -albanês.

Nessa segunda geração de organizações maoistas a oposição ao PCP era tão forte como contra o regime, ou mais.

Tinha-se a ideia de que havia dois inimigos: os fascistas e os revisionistas. A maioria das pessoas não tinha passado pelo PCP. Não tinham o molde da cisão pró- -chinesa, esses ou estavam presos ou exilados. As pessoas metem tudo no mesmo saco, mas estas organizações tinha identidades distintas: MRPP, CMLP, o Grito do Povo, PCP (ML). Tinham identidades próprias. E todos eles achavam que o PCP era a face do regime na oposição. O Partido Comunista Português reagiu com extrema violência ao aparecimento do esquerdismo. Os quadros do PCP não compreendiam o que se estava a passar. Achavam que uma provocação quase pidesca. As coisas estavam sempre no limiar da violência física.

Mas o PCP, como fez em outros assuntos, não teve uma dupla táctica: denunciar os esquerdistas e apropriar-se parcialmente de algumas das suas bandeiras?

Sem dúvida. O grande erro dos esquerdistas em relação ao PCP é não perceberem que a direcção de Cunhal era diferente da de outros partidos comunistas. Quando Cunhal sai da cadeia, criticando o desvio anarco-liberal de direita, está em contraciclo com o movimento comunista internacional, em que se assiste ao apogeu das teses de Krutchev da coexistência pacífica. As teses de Cunhal eram mais parecidas com as teses chinesas que com as teses soviéticas. O que não significa que Cunhal, como homem realista que era, não percebesse que tinha de estar do lado dos soviéticos. Mas em todos os momentos em que teve a oportunidade de fazer uma diferença Cunhal foi muito mais esquerdista que todos os dirigentes comunistas europeus. Cunhal tenta criar muito cedo uma organização para a luta armada, que mais tarde veio ser a ARA (Acção Revolucionária Armada). Os textos de Cunhal mostram que ele tinha uma enorme preocupação com os esquerdistas e com o apelo da luta armada. Sabia que havia militantes do PCP que tinham participado na tentativa de golpe de Beja.

Usando a frase imortal do Baptista Bastos, onde é que estava no 25 de Abril?

[Risos] Estava no Porto, a organizar a transferência de um copiógrafo de uma casa segura para umas casa ainda mais segura. Os copiógrafos eram as verdadeiras preciosidades que as organizações tinham. E encontrei-me de manhã com um camarada meu que tinha carro. Ele chegou muito preocupado a dizer que tinha um golpe do Kaúlza. Estacionámos numa mata, para tentar ouvir o que se estava a passar na rádio. Na altura não havia telemóveis e as comunicações eram mais complicadas. Resolvemos, portanto, voltar. Eu só me apercebi da mudança radical quando assisti a uma cena ao princípio da tarde. No porto havia um edifício na Avenida do Aliados que era do Comércio do Porto. E lá fora vemos muita gente em frente do placard informativo. O papel pequeno dizia que em Matosinhos havia uma revolta popular. Eu sabia que esses papéis não podiam durar muito. Apareceu a polícia, em carrinha, mas nesse momento apareceram três ou quatro militares e a polícia fugiu. Lembro-me perfeitamente de ver a carrinha subir a avenida de portas abertas com os polícias cheios de medo.

Qual foi a vossa posição política?

Nós estávamos fragmentados, mas a nossa posição foi a tradicional, que o 25 de Abril não passava de um golpe burguês. E insistirmos na questão da Guerra Colonial. Na altura essa questão não parecia em vias de ser resolvida. Mas depressa a realidade ultrapassou isso, e o que fez a minha organização, como outras, foi manter parte da organização clandestina, e as pessoas que vieram de França construir uma frente legal, o Partido da Unidade Popular e o jornal "Verdade".

Em poucos anos parte das organizações maoistas confluíram no PC(R), restando este, o MRPP e pouco mais. Qual é o seu papel nesta fase?

Eu sou uma espécie de pioneiro da saída. Sou dos primeiros a sair. Toda a gente acha que sou um maoista empedernido porque eu falo destas coisas, não tenho nenhum problema em saber, e admitir que sei muito sobre estas coisas. É uma experiência de comunidade de risco. As pessoas não têm nenhuma consciência disso, porque depois do 25 de Abril o máximo de risco que têm é perder um lugar num partido. Na altura o risco era total, podiam até perder a vida. Eu não concordava com a unificação no PC(R) e tinha uma análise diferente do PCP. Enquanto a maioria tinha a ideia de que eles eram reformistas, eu achava que o PCP queria mesmo tomar o poder. Escrevi dois longos textos sobre isso, sob pseudónimo, assinei como Rui. Afastei-me em Abril de 76, abandonei. Não se pode confundir o realismo do discurso da direcção do Cunhal, que tinha sempre um pé em cada sítio, com o que o PCP verdadeiramente queria. Os textos soviéticos da altura também mostravam que havia uma cisão quanto à situação. Por mais burocratas que fossem, homens como o Suslov não abandonaram a perspectiva revolucionária.

O processo de normalização democrática não leva muitos deles a normalizar também as suas convicções?

Acho que há uma análise mais fina do que essa. Há um conjunto de pessoas que se integram no sistema democrático, mas trazendo-lhe algumas coisas que eles não tinham. Por exemplo, não havia uma verdadeira crítica da União Soviética enquanto poder totalitário.

Em Portugal, quem fez as audiências Sakarov? A ala do PS ligada ao Soares e os antigos maoistas. Em França foi a mesma coisa com os "novos filósofos". Quando analisamos os motivos que levaram uma geração a entrar no maoismo e depois a sair dele vemos uma grande continuidade. Um dos motivos de crítica ao PCP era a rejeição do neo-realismo. Havia uma reivindicação do surrealismo. Era um programa liberal e libertário.

Isso não é uma espécie de justificação a posteriori?

Não. Posso dar-lhe o meu exemplo, tinha um enorme conflito com o Mário Vieira de Carvalho por causa da música que passava na secção cultural da associação de estudantes. Eles só passavam discos do Chant du Monde [editora do PCF].

Qual era a sua playlist?

A gente passava música do Xenakis, música concreta, que assustava muita gente. Estas gerações têm elementos de identidade, apesar da suas mudanças políticas. Veja, a maioria das pessoas desta geração nunca foram reaccionárias em matéria de costumes.

Uma das plataformas que intelectualizaram a passagem para a direita dos maoistas foi o Clube de Esquerda Liberal.

O Clube da Esquerda Liberal é em grande parte uma construção de três pessoas: eu, o João Carlos Espada e o Manuel Villaverde Cabral. Todos com percursos diferentes. Eu conheci o Espada de capuz. Numa reunião em casa da Vieira da Silva em que eu, como pertencia ao sector clandestino, estava de capuz, o que além de ser ridículo criava um enorme problema. Muitas vezes dormíamos no chão das casas em que reuníamos e mesmo nessa altura tinha de usá-lo. Reuni muitas vezes com um capuz enfiado na cabeça. Nessa altura conheci o Espada e o António Costa Pinto, que estavam como dirigentes da UEC (ML). O Manuel Villaverde Cabral veio do PC, aproximou-se da FAP e depois teve uma relação com sectores da extrema-esquerda italiana. É responsável por uma publicação que tem uma grande importância no esquerdismo português, os "Cadernos de Circunstância". Nós os três, que tínhamos vindo do esquerdismo, começamos a ler autores como Karl Popper, com discussões épicas com o Fernando Rosas, de quem sou amigo. O Clube da Esquerda Liberal, em que participou em debates o próprio Mário Soares, teve uma grande importância na introdução de uma visão liberal na política portuguesa.

Esse tipo de conhecimento e percurso é obviamente uma vantagem...

Uma desvantagem é que sei perfeitamente o percurso das pessoas. Tive uma altercação com o Sócrates em que ele me disse: "Uma vez radicais, sempre radicais." Eu respondi-lhe: "Olhe para o seu governo: tem um PC que saiu quase directamente do PC para o executivo, e vários do MRPP."

Com o governo do seu companheiro Passos Coelho e o programa da troika há condições para a radicalização social?

Claro que há. Felizmente, não tem havido mais, porque o PCP e a CGTP têm tomado uma posição moderada, impedindo a radicalização. Impedem que o protesto social ganhe uma faceta violenta. Por isso é que eu digo à gente do meu partido que tenha cuidado com a forma como fala com o PCP.

Há quem diga que nada vai acontecer porque somos um país de brandos costumes.

Isso é uma treta. Portugal nunca teve brandos costumes. O que não teve no século XX foi guerras civis como em Espanha ou na Grécia. Mas teve no século XIX guerras liberais e usaram-se todos os mostruários do catálogo da violência possível. Estes novos radicais serão radicais de dois tipos: anarquistas e populistas da direita política e demagógico, e estes dois tipos entendem-se muito bem. A ideologia presente das acampadas tem uma base antidemocrática e contra os partidos.»


por Nuno Almeida, jornal i online, 02-7-2011

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Primeiro de Abril de 2011 - O dia da grande mentira de Pedro Passos Coelho

A 1 de abril deste ano - dia das mentiras - Passos Coelho garantia que não ia haver cortes no subsídio de Natal. Menos de três meses depois, o agora primeiro-ministro anunciou o corte de 50% do 13.º mês ou subsídio de Natal.

As declarações do então candidato às legislativas foram feitas há três meses. Passos Coelho enviava não só ao país mas, concretamente, a uma adolescente da escola de Vila Franca de Xira, uma mensagem de esperança em relação ao corte de subsídios.




Texto in Expresso online, 01-7-2011
Vídeo in YouTube


Notas do Zorate:
José Sócrates, grande sacana, volta, estás perdoado!

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Com um secretário de Estado assim, a Cultura portuguesa está no seu caminho...

Finanças penhoraram secretário de Estado da Cultura

«Francisco José Viegas foi notificado, a 24 de Junho, de uma penhora de 41.863 mil euros.


O novo secretário de Estado da Cultura, o escritor Francisco José Viegas, foi alvo de uma penhora de 41,863 mil euros pelas Finanças de Cascais. Francisco José Viegas foi notificado a 24 de Junho da penhora, tendo 30 dias para regularizar a situação.

Contactado pelo DN, o gabinete do secretário de Estado esclareceu: "Existe uma reclamação por parte do Dr. Francisco José Viegas, referente ao critério utilizado para o apuramento da matéria colectável relativa ao IRS de 2007".

Independentemente do resultado da contestação em curso, a administração fiscal avançou, como é aliás de Lei, sem suspender os seus prazos de execução. Francisco José Viegas aguardará a resposta à contestação para, em função da decisão, cumprir com todos os compromissos que venham a ser efectivamente determinados".»

in DN online, 01-7-2011
Título do post de Zorate


Notas do Zorate:
É eticamente aceitável que um governante tenha os seus impostos de 2007 (há 4 anos) por regularizar?
Fica a pergunta...

Jiazhou, China: inaugurada a maior ponte do Mundo sobre o mar

Foi inaugurada na China a maior ponte do Mundo sobre o mar. Tem 36,48 quilómetros, custou cerca de 1500 milhões de euros e fica situada na cidade de Qingdao.



A ponte levou quatro anos a ser construída e faz a ligação entre a cidade e os subúrbios de Huangdao, na baía de Jiazhou, diminuindo a distância entre as cidades em cerca de 30 minutos.


Aqui fica situado um dos principais portos da China e a sede das provas olímpicas.



Note-se que, recentemente, foi também inaugurada na China a maior linha de alta velocidade, que liga Pequim a Xangai ao longo de 164,8 quilómetros.




Um outro recorde recente batido pelos chineses é o do maior gasoduto do Mundo, com 8700 quilómetros. É o segundo gasoduto de gás natural na Ásia Central.



Curiosamente, todos estes recordes coincidem com o 90.º aniversário do Partido Comunista chinês.




Texto in JN online, 30-6-2011
Imagens in Google

Quem deve suceder a José Sócrates na liderança do PS?


Segundo os votantes no inquérito deste blogue, António José Seguro é o socialista mais bem colocado para suceder a José Sócrates na liderança do PS.

- António José Seguro -

Resultados:

António José Seguro - 27 votos - 37%

Francisco Assis - 21 votos - 29%

António Costa - 14 votos - 19% (Não é candidato)

Outro - 10 votos - 13% (Não é candidato)


Notas do editor:
Dias de votação: 20
Votantes: 72

Cada votante votou uma vez. Caso tenha votado uma segunda vez, o segundo voto eliminou o primeiro. Este inquérito não obedeceu aos critérios de validade científica das sondagens e não pretendeu representar com rigor as opções do público em geral nem as dos utilizadores da Internet. Ele teve um valor meramente indicativo das preferências dos leitores deste blogue.

"O meu partido é a Madeira e o PSD o meu instrumento."

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Alberto João Jardim, sobre o programa do Governo chefiado por Pedro Passos Coelho, o presidente do Governo Regional Madeirense avisa que a Madeira "não prescinde das suas competências autonómicas para realizar programas e outros no domínio das autonomias". Público, 30/06/2011, reproduzido no Expresso online.
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"Horta do Zorate" é o blogue pessoal de Alberto João (Catujaleno), cidadão do mundo em autoconstrução desde 1958.